1940 – A ideia

1940 – A ideia

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COMO NASCEU A IDEIA DO PADRÃO DOS DESCOBRIMENTOS

Em 1939, quando o Duarte Pacheco e Leitão Barros, concebiam o projecto-ideia da Exposição do Mundo Português, melhor, quando faziam o esboço daquilo que havia de ser a maior Exposição da vida portuguesa, em termos históricos e patrióticos, o então Ministro das Obras Públicas, deslocou-se ao atelier do artista-arquitecto José Ângelo Cottinelli Telmo a quem já tinha dado instruções para elaborar um Projecto-Modelo da Exposição, para observar aquilo que este artista já tinha executado. Assim Duarte Pacheco e Leitão de Barros, no atelier de Telmo, viram o Plano Geral, na Rua Saraiva Carvalho, à Estrela, em Lisboa. À saída do atelier, trocaram impressões sobre o assunto, no diálogo que se transcreve:

– Duarte Pacheco para Leitão de Barros, perguntava: – Que lhe parece? O Senhor está tão calado…É mau sinal. Oh homem, desembuche!
– Leitão (desconfiado) – Quer que lhe diga a minha opinião – ou que repita a de V. Ex.ª…É a única maneira de se não zangar…
– Pacheco (afirmativo) – Vai para casa? Se quer deixo-o lá. (Ambos entraram no carro e partiram).
– Pacheco (altivo) – Vá! Sirva de Cardeal Diabo…
– Leitão (sincero) – Acho que é uma “Exposição dos Portugueses”, que foram ao Mundo inteiro. Tem muitos palácios, muitos pavilhões parados, muitas relíquias…Mas falta-lhe o sentido de PARTIDA! É estática, vertical, terrestre.
Ao contrário, eu quereria alguma coisa que desse a sensação de deslocação, de movimento, de arranque para a Aventura. Mais Dom Henrique – e menos o seu homónimo, “Dom Duarte”…
– Literatura!… – balbuciou o ministro, de mau modo.
Houve um silêncio e chegaram a casa. Leitão despediu-se e, quando já tinha o pé na rua, Pacheco chamou-o e argumentou:
– Volte a casa do seu cunhado. Convença-o disso. Eu levo-o no carro. Mas vá antes que ele se deite.

Assim, à uma hora e meia da manhã, Leitão entrava de novo na casa da Rua Saraiva Carvalho. Essa noite foi uma tempestade. O Telmo começou aos berros: “literatices…palavras … sentido de partida…lérias…Agora envenenaste-o, e eu que o ature!”. Ecoaram palavrões no silêncio da rua, em frente aos austeros ciprestes do cemitério dos Ingleses, enquanto Leitão folheava ilustrações. Entretanto, o Telmo num bocado de mata-borrão e, com fósforos ardidos, que faziam montes nos cinzeiros, começou a esboçar o perfil do Padrão dos Descobrimentos. Leitão, de soslaio, ia espiando. De repente, levanta-se e surpreendido, exclamou:

– Está aí o Monumento! – Então Telmo protesta: – Qual carapuça! Sabes o que me falta aqui? Umas mãos como as de Leopoldo (escultor) para ver isto em volume. E era preciso uma escala grande. Senão dá-me “tinteiro para ourivesaria” do Porto… Mas queres que vá chamar o Leopoldo? – interroga Leitão. – A esta hora? – exclama Telmo cansado.

Então o Leopoldo foi arrancado à cama. Leitão passa pela olaria da Rua da Imprensa e o velho Sr. Duarte veio à janela. Leitão obriga-o a vir cá a baixo buscar duas pelas de barro. Meia hora depois, sobre um esboceto feito a cabeças de fósforos, regado a chávenas de café, trazidas pela mãe, D. Cecília, enquanto o prédio dormia, nascia, na Rua Saraiva de Carvalho, o Padrão de Belém. Às 6 da manhã, ambos excitados e exaustos, o arquitecto Telmo e o escultor Leopoldo tinham dado à nossa terra uma grande peça de pura inspiração!

Na manhã seguinte, Leitão procura o Ministro Pacheco, no Terreiro do Paço e, rasgando uma folha de um bloco, pede a Nazaré de Oliveira que lha entregue, pessoalmente e discretamente. Rezava assim: “O Telmo e o Leopoldo trabalharam toda a noite. O Padrão está pronto. O Telmo está a dormir.” O sentido da partida que é a génese do “Padrão das Descobertas” veio à vida e Pacheco exclama para Leitão de Barros: – o Senhor é danado! E é assim que em oito meses se ergue aquilo a que na época se chamou o milagre de 40, no Restelo, contendo a gesta portuguesa rasgando o mar, simbolizada pelo Padrão dos Descobrimentos.

SYNEK, Manuela O.: “O Padrão dos Descobrimentos – a gesta portuguesa rasgando o mar”, in Lisboa – Revista Municipal, n.º 13, Lisboa, 1985, pp. 41-56.